sábado, 30 de julho de 2011

Serpa Pinto 30-07-1969

"Das Terras do Fim do Mundo"

Escreve: Mário

Queridos pais:

Espero que ao receberem esta minha carta se encontrem de saúde que eu felizmente bem.
Ainda escrevo das "Terras do Fim Do Mundo", mas parece que está para breve a nossa rendição. O Capitão foi de férias e deixou um papel para o Alferes nos render. Esta porcaria da tropa é toda feita à base de pedidos e outras coisas mais.
O nosso Capitão é muito boa pessoa e aqueles tipos em Luanda não o largam, uns andam a tirar a carta, outros são casados, etc, etc. Eu sei lá quantos motivos alegam para não vir para cá. O homem diz que não tem coragem para os mandar para cá. Enfim nós que cá estamos é que temos de aguentar, além de mais ainda há o problema das passagens que andam à volta de 1.000$00, e como tem de ser pagas pela companhia temos também o primeiro contra nós. Isto é um problema muito complexo e giram tantos interesses à volta desta coisa que mais vale o pobre do soldado estar calado.
Com respeito ao meu auto vou no dia 6 para Luanda pois tenho de estar lá no dia 12 para ser ouvido. Mas ainda não é desta vez que a coisa fica resolvida pois ainda tenho de lá ir outra vez e só então a coisa será solucionada. No entanto não escapo sem um castigo. Mas isso não conta, esta coisa está quase a acabar e a mim o que me interessa é chegar vivo e normal como para cá vim.
Infelizmente já vi muitos rapazes ficarem cá para sempre, outros são evacuados com doenças incuráveis, e alguns que ficam malucos. Ainda à pouco tempo um rapaz do Carvalhido foi maluco para aí. Por conseguinte não me importa nada com isto, o que interessa é saúde e dinheiro no bolso, o resto é paisagem.
Amanhã, sábado estou convidado para ir almoçar a casa de um amigo de cor que trabalha no governo do distrito. Como vou a Luanda ele quer que vá lá almoçar. Vamos comer "moamba de galinha", este prato é típico cá de Angola. Com muito gindungo é de comer e chorar por mais. A malta começa a comer  à 1 hora e só acaba lá para as tantas. Gostava que assistissem cá a um almoço, é sempre a vir coisas diferentes.
Sinceramente lhe digo que a tropa cá em Angola tem mais amigos  nos pretos que nestes cães brancos. As miudas dizem que só ligam aqueles que tem divisas e galões amarelos nos ombros, os familiares ainda são piores. Pelo menos nós dos "transportes" ainda somos os que estamos menos mal, pois estes civis brancos precisam muito de nós na picada. No meio disto tudo é tamanho o jogo de interesses e tenho visto tanta coisa que contado ninguém acredita. É preciso cá andar para compreender muita coisa nesta guerra e mesmo assim não se chega a saber nada.
Com respeito à minha situação futura não me agrada a hipótese de trabalhar em Portugal, pois digam o que disserem dai é sempre a mesma porcaria. África é uma hipótese, pois basta dizer que enquanto aí um motorista ganha 3.000$00, cá ganha 7.000$00, bem sei que a vida é mais cara mas vive-se melhor. Mas depois de acabar esta triste vida e me ver liberto destas cadeias que oprimem um individuo, resolverei qual o caminho a seguir.
E por hoje é tudo, beijos e saudades para todos do: 
Mário

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Serpa Pinto 18-07-1969

"Das Terras do Fim do Mundo"

Escreve: Mário

Queridos Pais:

Espero que ao receberem esta minha carta, se encontrem de óptima saúde que eu felizmente bem.
Como podem verificar ainda me encontro no "Cuando Cubango" sem saber a data em que regresso a Luanda. A nossa rendição é difícil pois além da distância a que nos encontramos de Luanda, há também o problema dos tipos que se encontram na companhia que andam de volta do capitão a pedir para não virem para cá, pois têm medo.
Quanto ao ter cuidado não adianta, pois nunca se sabe quando parte o primeiro tiro nem a quem é dirigido, e o mal é que o primeiro nunca falha. A única coisa a fazer é encarar esta coisa com a maior descontracção e nunca pensar que podemos morrer a seguir. Pela minha parte creio que não nasci para morrer cá e portanto não ligo nenhuma a isto, limito-me a deixar correr o tempo.
Os meses da pensão que estão em atraso, creio que estão cancelados enquanto o auto não for resolvido. Nós cá recebemos 150$00 de subvenção de campanha e este mês não nos pagaram, não consigo perceber as contas destes tipos, vamos a ver se pagam para o próximo mês.
O meu auto nada posso fazer pois tem de seguir a burocracia.
O mês passado, um colega quando seguia de Luanda para Úcua com maçaricos que tinham chegado da Metrópole, virou o mesmo e matou 3 furrieis e 20 e tal feridos. Como vêem uma pessoa para ter complicações tanto faz Luanda como aqui.
Por cá, e nesta zona estamos na época do frio mas só de noite pois de dia faz um calor dos diabos. De noite durmo com três mantas. É um clima levado dos diabos e que dá cabo da saúde.
Acho que a carta que escrevi á mãe não era nada lacónico, só que não tenho culpa que o pai não perceba. Também lhe digo que nunca me pediram nada e se ás vezes mando alguma coisa é porque quero pois como não tenho feitio para guardar dinheiro, mando para a mãe comprar alguma coisa que precise.
Simplesmente acho que o pai não se deve opor a que a mãe compre pulseiras ou qualquer outra coisa, pois eu quando lhe mando dinheiro é que digo que o mesmo é para comprar tal coisa e portanto não é a mãe que compra de livre vontade, pois ela simplesmente se limita a comprar o que eu digo.
Beijos para os meninos e para os pais
Mário
  

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Serpa Pinto 04-07-1969

"Das Terras do Fim do Mundo"

Para os seus queridos pais:
Escreve: Mário

Espero que esta carta os vá encontrar a todos de óptima saúde, que eu felizmente bem.
Devem estar preocupados com a minha demora em responder à vossa carta, mas a mesma foi-me entregue quando estava em viagem, e só chegámos no passado dia 1.
Foi mais uma coluna, mas esta com más recordações.
Saímos de "Serpa-Pinto" no dia 14 de Junho e passei o S. João em "Mavinga". A malta fez uma grande fogueira e divertimo-nos o melhor possível.
No dia 27 quando regressavamos do "Dima" ao "Cuito Cuanavale" é que foi bonito.
Na nossa coluna seguiam também carros civis, que como sempre são uns tipos cheios de pressa e como a Brigada de Engenharia Civil saía do "Dima" com a escolta de milícias, fizeram uma coluna saindo mais cedo duas horas do que os carros da tropa, e foi a nossa sorte.
Os turras tinham uma emboscada montada para nós, mas como passaram aqueles primeiro foram os que levaram.
Quando lá chegámos havia sete mortos e cinco feridos. Dos sete um era um condutor branco que levou um tiro na cabeça. Os outros eram: 2 mulheres, 2 crianças e 2 homens todos pretos, todos crivados de estilhaços de granadas.
Uma menina morreu nos meus braços quando a segurava para o enfermeiro lhe fazer o tratamento. Meu Deus, ainda agora sinto horror ao recordar aqueles momentos trágicos. Mas que guerra fazem estes bandidos quando assassinam os da cor deles ? Qual será a ideia deles.
Cá o problema é as granadas, pois os turras poucos tiros dão, mas quando soam os primeiros a malta manda-se abaixo dos carros, então os tipos lançam as granadas e, adeus vida !!
Bem no meio disto tudo tornamos a escapar e isso é que conta, a vida continua e no próximo dia 10 lá vamos para mais uma.
Creio que este mês já recebeu o aviso para levantar a pensão, pois já me foi descontada aqui.
Bem por hoje é tudo, saudades do 
Mário Luís


segunda-feira, 13 de junho de 2011

Serpa Pinto 13-06-1969

"Das Terras do Fim do Mundo"

Escreve: Mário

Queridos Pais:

Que esta carta ao chegar ao seu destino os vá encontrar de óptima saude são os meus desejos, que eu felizmente bem.
Cá recebí a vossa carta e tomei conhecimento das novidades que aconteceram no nosso burgo, quanto aos estudos do Zé Manel nada mais tenho a dizer, voçês aí sabem o que tem a fazer.
Quanto ás novidades por cá há muitas e das boas:
Assaltaram o S.P.M. (Estação Postal Militar) e roubaram segundo se consta 470.000$00, prenderam um furriel e um cabo que lá trabalhavam pois parece que foram eles que fizeram o desvio. - A segunda é o assalto a um avião da "D.T.A." por três tipos, que quando o mesmo ía fazer a escala em "Cabinda" o obrigaram a seguir para o "Congo Belga" onde aterrou.
A terceira novidade é relacionada com a nossa secção de transportes. No próximo mês começamos a fazer colunas na linha do sudoeste africano, ou seja junto à fronteira da "Africa do Sul".
Partindo de "Serpa Pinto", "Caiundo", "Cuangar", até ao "Mucusso". Por este motivo a malta já não quer ser rendida pois a coisa promete ser grande.
Pela minha parte ainda não resolví, se quando chegar a minha vez irei ou não. - Lá para o fim do mês devo ir a "Luanda" por causa do meu auto, depois é que vejo como as coisas lá estão.
Quanto à situação militar, a coisa está a aquecer pois os "turras" estão a experimentar os "maçaricos". No passado dia 10 atacaram o "Cuito Cuanavale", mas não causaram baixas.
Amanhã dia 14 vou sair em mais uma coluna, só devemos estar em "Serpa Pinto" no dia 30.
Como sabe pelos jornais o Benfica esteve em "Luanda" e foi a sensação, o Estádio dos Coqueiros esteve à cunha. - Para fazer uma ideia do que isto foi digo-lhe que se venderam bilhetes a mais de 10 contos. Uma loucura!!!
Cá o dinheiro anda ás mãos cheias. Também este é o país dos ladrões!!!
E por hoje é tudo, beijos para todos do 
Mário Luis
     

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Serpa Pinto 19-05-1969

Das "Terras do Fim do Mundo"

Escreve: Mário

Queridos pais:

Ainda continuo a escrever das "Terras do Fim do Mundo", já foram rendidos 6 homens da nossa secção, mas incompreensivelmente os 5 que estivemos na secção de "Ambrizete" ainda não fomos desta. - Somos os únicos da companhia que temos perto de 11 meses em zona operacional e portanto merecíamos ser os primeiros a ir para "Luanda".
Como é lógico, ficámos aborrecidos com a injustiça que nos fizeram e escrevemos uma carta ao capitão a dizer-lhe algumas verdades, no entanto, o tipo ficou furioso e agora a sermos rendidos seremos os últimos. - Para nós também já não importa, pois 7 meses passam depressa, e aqui ou em "Luanda" é igual, mas assim o tipo ficou a saber que não está a lidar com garotos.
Também se torna difícil a rendição, pois segundo noticias dos colegas que agora foram embora, anda tudo em reboliço na companhia, pois os "heróis do arame farpado" andam a chorar à  volta do capitão com medo de para cá vir.
O batalhão que cá estava foi rendido, levou menos de 30 homens que pagaram com a vida a "soberania" das Províncias Ultramarinas.
Agora veio um de cavalaria, oxalá se portem bem.
Quem dera que os "turras" não se metam com eles, mas não devem ter sorte pois os pretos gostam de apalpar o pulso aos "maçaricos". Qualquer dia temos festa, hoje saiu a coluna e eu fiquei a descansar, pois os "maçaricos" vem cheios de medo e andam sempre com o dedo no gatilho.
Mudando de assunto: Não compreendo como é possível que não obriguem esse menino a pegar num livro, não adianta chegar ao fim do período e bater-lhe pois o mal já está feito. Agora é que devia levar umas palmadas pois ainda à tempo.
No entanto vocês aí devem saber melhor o que tem a fazer do que eu, mas não devem dizer um dia mais tarde que ele não estudou porque não quis; mas sim por não ser obrigado.
Não compreendo como esse menino tem o tempo tão ocupado, que não possa estudar, talvez ande a tirar um curso de "basket" ou de qualquer outro desporto.
Nada mais por hoje, a não ser os desejos que esta carta os vá encontrar de óptima saúde
Beijos para todos do
Mário


sábado, 7 de maio de 2011

Serpa Pinto 07-05-1969

"Aqui Terras do Fim do Mundo"

Querida Mãe:

Espero que esta carta a vá encontrar de saúde que eu felizmente bem. Deve estar alarmada com a demora da minha resposta, mas como sabe quando andámos em coluna a correspondência é-nos entregue num acampamento. Desta vez mandaram-na para "Mavinga" e nós já vínhamos a caminha de "Serpa Pinto" é por isso que estou a responder com atraso.
Embora vá com atraso, pois não sei se esta carta chegará aí em antes do dia 19, junto envio a minha prenda de anos para comprar o que quiser. Tenho medo que esta nota não chegue aí mas não à outra maneira de mandar dinheiro. Esses 500$00 são como digo a minha prenda de anos com os desejos de que o próximo dia 19 se prolongue por muitos anos. Só quero que faça o favor de comprar uma caixa de biscoitos e dê aos miúdos.
Este mês já me pagaram, comprei uma camisa de um tecido parecido com o terylene, custou 110$00. Comprei também uns sapatos de pala castanhos muito bonitos mas caríssimos 310$00, como vê as coisas não são nada baratas especialmente vestuário.
Mais nada por hoje, muitos beijos do
Mário

Serpa Pinto 07-05-1969

"Aqui Terras do Fim do Mundo"

Querido Pai:

Desde já as minhas desculpas de só agora lhes responder, mas como sabe retornei a andar sempre em movimento o que dificulta a entrega da correspondência pois é-me sempre entregue com atraso.
Já me foi pago o vencimento desde 15 de Março até ao fim de Abril, recebi 1.804$00. No entanto não sei porquê mas pagaram-me cá a pensão, já tratei de regularizar a situação para ela continuar a ser paga na Metrópole. Não mando agora os 500$00 pois já envio agora dinheiro para uma prenda para a mãe e não sei se aí chegará, mas na próxima carta envio os 500$00 para juntar ao outro. Quanto aos autos ainda nada sei, mas creio que surgirá algo dentro em pouco tempo. De momento ainda tenho em poder do Estado o dinheiro correspondente aos meses cancelados. Foi-me entregue um novo carro, uma Berliet Tramagal, este carro é muito melhor do que o Mercedes, vamos a ver se não me traz azar.
Então o hóquei caminha para a profissionalismo? Já não deve ser para mim pois um individuo sai daqui estourado interiormente.
A nossa rendição parece que agora sempre vai, já foram rendidos 6 e o capitão esteve cá e disse que até ao fim de Junho regressávamos todos a "Luanda", vamos a ver se agora vai.
O batalhão que está cá no "Cuando-Cubango" já vai embora, foram rendidos por um de cavalaria, agora vão para sul passar férias. A nossa secção foi aumentada vieram alguns da Metrópole.
Depois de amanhã tornámos a sair para o mato e agora os nossos inimigos são os "maçaricos" pois vem dai da Metrópole a pensar que isto é uma guerra e andam com as armas engatilhadas prontas a disparar, vão começar os desastres.
E por hoje é tudo beijos para os meninos e um abraço do seu filho
Mário

quarta-feira, 9 de março de 2011

Serpa Pinto, 08-03-1969

"Aqui Terras do Fim do Mundo"

Serpa Pinto, 8 Março 1969

Para seus queridos e saudosos pais,
Escreve Mário;

Devem estar alarmados com a minha demora em dar noticias, mas não foi por desmazelo, mas sim por falta de tempo. Como disse no bate-estradas ia sair para o mato numa coluna de reabastecimento e essa maldita coluna demorou 20 dias devido ás chuvas. Só para passarmos uma ponte estivemos quatro dias, a lama era tanta que chegava quase ás portas dos carros.
Foi preciso vir a Junta Autónoma das Estradas com 150 pretos "recrutados" na Sanzala para conseguirmos passar.
Parecia quase um filme bíblico, tanto preto a cortar árvores, a traze-las às costas e deitar na picada. Espectáculo fantástico. Felizmente que as chuvas estão a acabar, mas estes caminhos estão impossíveis, só água e lama, um tipo está-se sempre a enterrar. Em parte a coisa compensou pois palmei 2.100.$, dei 300$ ao ajudante e com o resto comprei um malão, umas calças e camisa, mais uns sapatos. Fiquei com perto de mil escudos que é para comer e beber bem nestes oito dias que estamos em descanso em Serpa Pinto. Calcule que nestes dias a ração de combate só trazia latas de chouriço e merenda de carne, estas ultimas enjoativas aos quatro meses de comissão. Nestes vinte dias a minha alimentação era: uma lata de leite e outra de chouriço e meia dúzia de bolachas. Claro que a malta chega à cidade só pensa em desforrar-se dos trabalhos e da fome que passou. O que nos aguenta durante a viagem é a cerveja e o vinho com açúcar surripiado das cargas.
Quanto à minha situação nada sei nem me preocupo, agora é só deixar correr e marfim. No fim do mês de Abril é que recebo o ordenado desde 15 de Março, portanto só no fim do mês é que devem receber a pensão. Quanto à detenção foi o seguinte:
Não sei como, mas estes tipos sabem que se eu quisesse e com os conhecimentos que tenho, que me punha no outro lado em menos de 3 dias e então toca a pôr o Mário sem autorização de sair do quartel. Mas como eu são Mário (o homem que faz desaparecer as coisas misteriosamente), sou um maluco com juízo e não vou em fitas deixei-me estar muito quieto a aguardar os acontecimentos, e assim continuo. Mas como o Marcelo Caetano vem cá, creio que isto fique em nada.
No próximo dia 14 torno a sair na coluna, é mais uma, e entretanto todos nós esperámos o dia de regresso a Luanda que não se sabe quando será. Como o "Cuando Cubango" é considerado uma das piores zonas de terrorismo, movem-se todos os padrinhos para não virem cá parar e a malta tem de aguentar.
Junto segue uma foto tirada junto ao aquartelamento da "N.Requinha" e portanto perto da fronteira com a Zâmbia, como podem verificar ainda estou inteiro e de óptima saúde graças à cerveja Nocal e Cuca.
Então a "Supico Pinto" deu uma palmada de 30.000 dele? - Sabe qual foi a prenda do M.N.F. nada! Nem sequer uma caixa de fósforos. Não percebo como os papalvos ainda dão dinheiro para essa cambada de vigaristas.
Nada mais por hoje, talvez eu antes de sair para a coluna mande uma camisola amarela !
Beijos para os meninos e para os pais do
Mário

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Serpa Pinto 10-02-1969

" Aqui terras do Fim do Mundo"

Para seus queridos e saudosos pais;
Escreve: Mário

Que ao receberem esta minha missiva, se encontrem de óptima saúde que eu felizmente bem.
Ainda continuo nestas malditas terras e ainda não sabemos quando somos rendidos, fala-se muitas coisas mas só acredito quando vir cá chegar os "maçaricos". Quanto ao meu auto, está complicado, pois tiveram de pedir para Lisboa a minha nota de assentos, isto são os bem organizados serviços do exército pois este papel deve acompanhar sempre o militar. Por este motivo, e enquanto não vier esse papel o auto não tem seguimento. Devem estar preocupados por ter demorado tanto a responder, mas estes tipos pregaram-me uma bela partida, como os tipos não me pagam, eu não faço colunas, é só comer e dormir.
No passado dia 21, saiu uma coluna nossa e havia um carro carregado de munições para levar, claro que a malta teme, pois aqui os turras tem a mania de lançar granadas, e além disso era para ir a "Rivungo" que faz fronteira com a Zâmbia. Como não havia condutores, o Alferes veio ter comigo para ver se eu estava disposto a levar o carro, mas, como é lógico eu recusei-me pois se não ganho, não tenho nada que bulir.
Então, fizeram chantagem comigo, que se fosse era levado em conta quando resolvessem o auto, claro que em face de tais argumentos tinha que ceder, fui e vim e felizmente sem novidade. Isto de tropa o mais pequeno tem sempre que ceder, mas não importa pois o que é preciso é acordar todos os dias com os pés quentes. Por cá, estamos na época das chuvas, e isto é o nosso martírio pois os carros só se enterram.
A guerra está má, este batalhão já tem 25 mortos, os comandos, levaram outra vez no corpo, morreu o Alferes. Estava eu no "Cuito Cuanavale" quando isso aconteceu. Tinha cinco dias de Angola, foram a uma operação, o Alferes entrou numa cubata e levou um tiro na cabeça.
Teve azar.
É assim a vida, nunca se sabe o que vai acontecer a seguir. A nossa secção tem tido muita sorte, pois, apesar de andarmos sempre no mato nunca nos atacaram, tenho ouvido tiros mas é sempre contra a escolta, ás vezes lá vem uma bala perdida, mas nunca contra nós. É por este motivo que os caçadores dizem que nós também somos turras, e quando a nossa coluna vai para sair eles dizem, que vai para o mato a coluna de reabastecimento aos turras.
Sinceramente, isto é uma guerra tão complicada e tão cheia de interesses, que um tipo dá em maluco se for a pensar ou tentar saber os porquês.
Junto segue uma foto minha tirada no "Cuito Cuanavale" a caminho do "Rivungo", a partir do "Cuito" é zona de porrada. O moço que está comigo é o mecânico que seguiu comigo e meu grande amigo, estamos a desejar muitas felicidades. Este moço ofereceu-se voluntariamente para ir comigo, reparem no meu chapéu e na classe dos óculos.
Somos os mais mal fardados do Exército mas sempre operacionais.
Saudades e beijos para todos do
Mário

domingo, 23 de janeiro de 2011

Serpa Pinto. 21-01-1969

Querido Pai:

Saúde e felicidades são o meu desejo.
Cá recebi a sua aflitiva carta que compreendo... No entanto nada de desagradável sucedeu ao meu físico. Soube agora, ao regressar do mato, que me tinham cortado a pensão e o meu vencimento, em consequência de um acidente que tive em Novembro. Vou tentar por escrito explicar-lhe as causas, consequências, e maquinações, destes "senhores" do Exército, mas antes, esclareço que em acidentes com viaturas da tropa o condutor "é sempre culpado"!
Tinha chegado a "Serpa Pinto" depois de uma viagem de 17 dias, e como sempre, carregado de lixo, fome, e vontade de dormir. No entanto, antes de poder cuidar de mim, tive de ir descarregar um material ao Quartel da Intendência. Já no regresso, e ao chegar a uma ponte surgiu o estúpido do acidente, apareceu um carro contra a mão e a única coisa que podia fazer era travar, no entanto, os carros depois de tantos dias a arrastar-se pela areia chegam mais estourados do que saiem e quando tentei travar os travões não obedeceram.
São daqueles acidentes em que se joga a vida em segundos e eu só tinha duas hipóteses: Espetar-me contra o carro civil, ou desviar-me e enfiar o carro no rio, e escolhi a segunda. Desviei-me, abri a porta do carro, saltei e adeus minha linda "Mercedes".
O carro não caiu ao rio pois foi detido por uma árvore e ficou todo amachucado. Quanto a mim, tornei a ter sorte, só umas arranhadelas. Já não teve tanta sorte, um preto que seguia em cima do carro, pois ficou todo amachucado. Como consequência levantaram-me dois autos: -Um pelo esbarramento, disseram-me se queria pagar os prejuízos, claro que me recusei. - O segundo por excesso de velocidade, e que em virtude disso o preto tinha ficado ferido, "Friso que este auto é devido à Acção Psico-Social" que é formula que descobriram para calar a boca aos "Defensores dos Negros".
Resumindo: Dois autos, mas o que mais me aborrece é dizerem que vinha com velocidade a mais. Sim vinha a 70 kms, mas não se lembram que já não comia uma refeição quente à 17 dias, que se neste tempo todo dormi três dias foi muito!!! Isto não conta, bateu paga.
Comigo não dá certo, não tenho medo, os autos seguiram e quando for responder saberei falar e direi muitas coisas que desconhecem no Quartel General.
Nesta secção, tenho muitos colegas a pagar prejuízos por esbarramentos que tiveram, devido ao sono. Alguns pagam com medo de levar prisão, outros são como eu, não vão em conversa.
Não fiquem preocupados aí em casa, pois eu sou um tipo com sorte, além disso, sabe-se que o Caetano vem cá e com ele, uma amnistia que arquiva esta porcaria toda. Além disso, tenho o Capitão da minha companhia que em "Luanda" mexe a coisa. Isto é uma porcaria de uma guerra em que meia dúzia de matulões teêm interesses. Só gostava de ser tipo capaz de escrever um livro... Que escândalo!!!
Sinceramente tudo que se está a passar não me assusta, já não sou maçarico. Quase 13 meses de Angola!!! - Ambrizete, Bessa Monteiro, Baka, Quibala, Toto, Quimaria, Tomboco, Lufico, Quinzau, 2ala, Quipedro, Quicabo, Nambuangongo, S. Salvador, Cuito, Dima, Mavimga, N`Requinha, Rivungo, etc, etc, já conheço mais de Angola do que qualquer atirador.
Esta é a nossa missão, percorrer Angola, levando comida e munições, portanto não é a porcaria de uma participação que me assusta. Estou farto de lidar com "chicos" de galões.
Podem cortar o vencimento, a pensão, tudo o que quiserem, eu só quero acordar todas as manhãs com o céu da boca quente.
Acho que é o que os pais também querem, não é verdade? Já lá vão 13 meses e o tempo vai passando.
Quanto à guerra, agora está um pouco pior, por acidente, rebentou uma granada e matou sete soldados. Também fizeram umas emboscadas e mataram alguns dos nossos, em contra partida, quando a tropa ia recolher uma população, soaram os tiros e adeus população, cento e tal pretos para o país das caçadas eternas.
Este batalhão tem em 12 meses 24 baixas, deve ser o que tem presentemente o record cá em Angola. Com nós os tipos ainda não se meteram.
Quando perderemos este privilégio?
Vou terminar, nada de preocupações, pois tudo corre bem, e "ENTRE MORTOS E FERIDOS, ALGUÉM HÁ-DE ESCAPAR"
Um abraço do seu filho
Mário.


terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Serpa Pinto 01 - 01 - 1969

"Aqui Terras do Fim do Mundo"

Para seus queridos e saudosos pais
Escreve: Mário

Esta é a primeira carta que escrevo no Ano de 1969, desejo que todos aí em casa tenham entrado este ano tão bem ou melhor do que eu entrei.
Felizmente estas festas correram maravilhosamente, e a malta quase que não se lembrou de que estava longe da família. Na véspera de Natal, a ementa oferecida cá pelo batalhão foi ás 17.30h: jantar, arroz e cabrito assado. Ás 11.00h da noite era a ceia de Natal, no entanto, à ultima da hora, houve uma zanga, entre a nossa secção e o comandante do batalhão, e nós, em sinal de protesto não comparecemos à ceia.
Não calculam a bronca que isto deu, pois estavam cá o Governador do Distrito, as tipas do M.N.F. (Movimento Nacional Feminino), etc, mas nós, não saímos da caserna.
O nosso alferes, ofereceu 10 grades de cerveja e umas garrafas de whisky, a malta, comprou champanhe, Porto, etc, mandámos assar 4 leitões e foi aquela máquina.
O nosso alferes, também não compareceu à ceia do Batalhão, ficou com a malta, nunca passei uma noite de Natal levantado até tão tarde, eram 5 da manhã quando fomos para a cama, todos com uma grande bebedeira, cantámos, dançámos, foi em grande, os próprios soldados do Batalhão vieram até à nossa caserna ver a nossa festa.
Foi um escândalo a nossa rebeldia, mesmo os civis comentaram no dia seguinte o assunto, pois este comandante é tímido. Ele diz que quem manda no distrito do "Cuango Cubango" é ele, aliás o apelido dele é significativo "Bafo de Onça", deve ser o tipo mais indecente que existe na tropa, uma vez disse que prefere perder um homem a uma munição. Quando nós para cá viemos o tipo quis levantar cabelo, mas com nós o tipo não brinca.
No dia 25, e para recuperar o que gastaram na véspera a ementa foi: arroz de bacalhau e massa com carne, a mim não me apanharam pois apesar da ementa ser deliciosa, eu não gosto de arroz.
De castigo por nós não comparecermos à ceia, o tipo queria que saíssemos para a coluna no dia 30 que era para passarmos o Ano na mata, mas o nosso alferes não concordou, e assim saímos hoje no dia 1.
De qualquer das maneiras o tipo estragou-nos os planos, pois tínhamos um jantar marcado para o dia 4, data em que fazemos um ano de comissão, e teve de ser adiado até regressarmos.
Na passagem de Ano houve cá baile!! isto é coisa inédita cá para estes lados, mas veio um conjunto de "Silva Porto" e por milagre apareceram cá mulheres e foi em grande.
Também foi um grande escândalo, as mulheres todas bêbedas, inclusive, as mulheres dos oficiais, aquilo foi só visto.
Mas no meio disto tudo, o importante é que passei umas festas muito agradáveis, no entanto o que é bom sempre se acaba, e às 4 da tarde, rola para mais uma coluna, que deve ser a ultima.
Quanto às notas do Zé Manel, não digo que sejam más, pois isso era desiludir o miúdo, no entanto são fracas, tem de apertar com ele para melhorar.
Que se deixe de "basket" e do "Académico", pois isso não é futuro.
A minha encomenda, já perdi as esperanças, pois já escrevi duas vezes e nem resposta tive, mas vou tornar a faze-lo.
Beijos do:
Mário
p.s. por dificuldades de acesso à internet esta carta só foi publicada ao dia 4