quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Serpa Pinto 10-02-1969

" Aqui terras do Fim do Mundo"

Para seus queridos e saudosos pais;
Escreve: Mário

Que ao receberem esta minha missiva, se encontrem de óptima saúde que eu felizmente bem.
Ainda continuo nestas malditas terras e ainda não sabemos quando somos rendidos, fala-se muitas coisas mas só acredito quando vir cá chegar os "maçaricos". Quanto ao meu auto, está complicado, pois tiveram de pedir para Lisboa a minha nota de assentos, isto são os bem organizados serviços do exército pois este papel deve acompanhar sempre o militar. Por este motivo, e enquanto não vier esse papel o auto não tem seguimento. Devem estar preocupados por ter demorado tanto a responder, mas estes tipos pregaram-me uma bela partida, como os tipos não me pagam, eu não faço colunas, é só comer e dormir.
No passado dia 21, saiu uma coluna nossa e havia um carro carregado de munições para levar, claro que a malta teme, pois aqui os turras tem a mania de lançar granadas, e além disso era para ir a "Rivungo" que faz fronteira com a Zâmbia. Como não havia condutores, o Alferes veio ter comigo para ver se eu estava disposto a levar o carro, mas, como é lógico eu recusei-me pois se não ganho, não tenho nada que bulir.
Então, fizeram chantagem comigo, que se fosse era levado em conta quando resolvessem o auto, claro que em face de tais argumentos tinha que ceder, fui e vim e felizmente sem novidade. Isto de tropa o mais pequeno tem sempre que ceder, mas não importa pois o que é preciso é acordar todos os dias com os pés quentes. Por cá, estamos na época das chuvas, e isto é o nosso martírio pois os carros só se enterram.
A guerra está má, este batalhão já tem 25 mortos, os comandos, levaram outra vez no corpo, morreu o Alferes. Estava eu no "Cuito Cuanavale" quando isso aconteceu. Tinha cinco dias de Angola, foram a uma operação, o Alferes entrou numa cubata e levou um tiro na cabeça.
Teve azar.
É assim a vida, nunca se sabe o que vai acontecer a seguir. A nossa secção tem tido muita sorte, pois, apesar de andarmos sempre no mato nunca nos atacaram, tenho ouvido tiros mas é sempre contra a escolta, ás vezes lá vem uma bala perdida, mas nunca contra nós. É por este motivo que os caçadores dizem que nós também somos turras, e quando a nossa coluna vai para sair eles dizem, que vai para o mato a coluna de reabastecimento aos turras.
Sinceramente, isto é uma guerra tão complicada e tão cheia de interesses, que um tipo dá em maluco se for a pensar ou tentar saber os porquês.
Junto segue uma foto minha tirada no "Cuito Cuanavale" a caminho do "Rivungo", a partir do "Cuito" é zona de porrada. O moço que está comigo é o mecânico que seguiu comigo e meu grande amigo, estamos a desejar muitas felicidades. Este moço ofereceu-se voluntariamente para ir comigo, reparem no meu chapéu e na classe dos óculos.
Somos os mais mal fardados do Exército mas sempre operacionais.
Saudades e beijos para todos do
Mário